A Inserção das Economias Emergentes no Cenário Político Internacional
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A Inserção das Economias Emergentes no Cenário Político Internacional
Mauro Salvo*
RESUMO
O objetivo central do trabalho é analisar se e como as economias emergentes ganharam poder no cenário político internacional, através do aumento de seus recursos de poder econômico. Como o foco do trabalho foi direcionado para a evolução do poder econômico das economias emergentes e suas implicações para o sistema de nações, a atenção maior foi dada às movimentações da economia política internacional. A hipótese considerada foi que alguns países emergentes têm aumentado seu poder global e desta forma impactado a organização do sistema e as relações econômicas internacionais. Mostrar-se-á que a estabilidade do sistema não esta sendo ameaçada visto que não há evidência de que haja alguma nação capaz de assumir a liderança e implantar outro sistema. Baseado no exposto considera-se que as economias emergentes estão aumentando sua fonte de poder econômico e começa a influir nas decisões que durante décadas foram limitadas ao G-7 e as evidências disso são a constituição do G-20, a participação no Grupo de Estabilidade Financeira do BIS e o aumento do peso nos votos do FMI e Banco Mundial.
Palavras-chave: Economia Política Internacional – Economias Emergentes – Poder – Relações Internacionais – Sistema Internacional
1 Introdução
O objetivo central da tese é analisar se e como as economias emergentes ganharam poder no cenário político internacional, através do aumento de seus recursos de poder econômico. Para isso pretende-se analisar o sistema internacional com vistas a esclarecer como se dão as relações de poder entre as nações, principalmente no pós segunda guerra mundial. Em seguida, serão abordadas as condições atuais das economias emergentes e suas perspectivas de aumentarem seus poderes relativos dentro da ordem mundial vigente.
Como o foco do trabalho será a evolução do poder econômico das economias emergentes e suas implicações para o sistema de nações, a atenção maior será dada às movimentações da economia política internacional, que não estão restritas aos organismos financeiros internacionais. Buscar-se-á mostrar que o jogo de poder se dá, preponderantemente, entre os Estados-nacionais.
Aceitando-se o pressuposto de que no futuro próximo provavelmente será maior o número de países mais influentes no sistema internacional devido a tornarem-se exportadores líquidos de capitais, a hipótese que servirá de guia para este trabalho será que as economias emergentes deverão ganhar poder relativo no cenário político internacional nas próximas décadas. Com mais países exportadores de capitais ou detentores de grande volume de reservas internacionais menor será a influência dos organismos financeiros internacionais e maior a pressão por reforma do sistema. O sistema internacional atualmente é comandado na prática por um pequeno número de grandes potências, caso estas deixem de influir no destino de percentual significativo do PIB mundial – em decorrência da ascensão de algumas economias emergentes - o jogo da economia política internacional passa a ser determinado num sistema de equilíbrio de poder econômico e na interdependência econômica.
Susan Strange levantou que um tema importante a tratar é como e por que o equilíbrio de poder entre a economia de mercado e a autoridade política conferida aos Estados mudou tanto durante a segunda metade do século XX. Normalmente, esta mudança se definiu com o termo impreciso de globalização e constitui um tema de debate continuo, especialmente entre os especialistas em relações internacionais, comércio internacional e economia política internacional. Quais são as relações políticas chaves que podem afetar ao sistema financeiro internacional, para melhor ou para pior? Foi alterado nos últimos tempos? (Strange 1999, 58)
A proposta deste artigo é dar tratamento multidisciplinar a pesquisa, com ênfase na teoria da economia política internacional e na teoria das relações internacionais. A análise se baseará fundamentalmente na magnitude das economias domésticas, medidas pelo PIB como proxy para determinar o que chamaremos de Poder Econômico.
Para compreendermos esta relação entre economia e política é crucial o pressuposto de que o comportamento dos estados não pode ser entendido completamente sem referência aos fatores econômicos. As nossas teorias têm de levar em conta não apenas os estados enquanto agentes, mas têm também de incluir agentes não estatais como as sociedades transnacionais, bancos e firmas de investimento. Critérios como o nível de desenvolvimento econômico, taxas de crescimento, parceiros comerciais, investimento, política fiscal e monetária deverão também ser considerados. A questão é qual o nível de protagonismo de cada um.
Na seção quatro serão tratados os assuntos referentes às principais economias emergentes, aquelas que fazem parte do G-20 com ênfase nos chamados BRIC’s. Quais são seus recursos de poder, como têm se desenvolvido e quais impactos causados pelo aumento relativo destes recursos para a estabilidade do sistema internacional. A questão que moverá a análise é se a acumulação de recursos de poder pelas economias emergentes, tanto em termos relativos como em termos absolutos, altera a distribuição de poder e quais as conseqüências para o sistema internacional de um novo arranjo de forças.
2 Fontes de Poder
A globalização não é apenas um fenômeno econômico, ela muda as relações de poder, as culturas e o meio ambiente. A globalização altera as relações de poder. No âmbito das relações internacionais, ela muda o poder das nações em desenvolvimento em relação aos países desenvolvidos. No âmbito das relações domésticas, ela modifica as relações de poder entre governo, negócios e sociedade civil. (Relatório de Pesquisa Política do Banco Mundial 2003, 167)
Nas duas primeiras ondas da globalização – o período até 1980 -, o poder dos países ricos aumentou em relação aos demais. Tal fato se deu ao mesmo tempo que o alargamento das desigualdades entre os países. Mesmo durante este período, o clube das nações mais ricas abriu-se para novos membros não ocidentais: o Japão tornou-se uma importante potência global. Entretanto, a arquitetura institucional mundial herdada desse período tem sido insatisfatória e confere pouco poder aos países em desenvolvimento. (Relatório de Pesquisa Política do Banco Mundial 2003, 167-8)
Durante esta terceira onda da globalização, o poder econômico está sendo deslocado dos países industriais pela primeira vez em mais de um século. As economias das novas nações globalizadas estão crescendo em ritmo muito mais rápido que as economias dos países membros da OCDE: China e Índia estão se tornando poderes econômicos importantes. Nações em desenvolvimento têm grande interesse na evolução da arquitetura mundial porque ela reduz o desequilíbrio de poder. São os fracos, e não os fortes, que são beneficiados pelos sistemas fundamentados em normas de conduta. (Relatório de Pesquisa Política do Banco Mundial 2003, 168)
Uma das características diferenciadoras da terceira onda da globalização é que a importância das nações em desenvolvimento está crescendo na economia mundial. No decorrer desse processo, é natural e desejável que sua crescente presença seja refletida nas relações de poder dentro de instituições internacionais como OMC, Conselho de Segurança da ONU, Banco Mundial e FMI. A situação de cada uma dessas instituições é diferente, mas o ponto geral é que uma grande parcela da interação econômica ocorrerá fora dos países membros da OCDE, então é importante que os novos atores da economia mundial tenham voz ativa na arquitetura mundial ao governar essas interações. A globalização não limita a independência dos governos nacionais em alguns contextos, mas estes devem possuir graus de liberdade para administrar a interação entre comércio, capital e fluxos de mão-de-obra de um lado, e cultura nacional e meio ambiente de outro. (Relatório de Pesquisa Política do Banco Mundial 2003, 192-3)
Poder é a capacidade de obter os resultados desejados e, se necessário, mudar o comportamento dos outros para obtê-los. A capacidade de obter os resultados desejados freqüentemente vem associada à posse de certos recursos, por isso é comum simplificar a definição de poder como a posse de quantidades relativamente grandes de elementos tais como população, território, recursos naturais, vigor econômico, força militar e estabilidade política. Assim o poder poderia ser medido com base na posse de recursos ou pelos efeitos sobre os resultados do manuseio destes recursos numa relação não paritária. (Keohane e Nye Jr 2001, 9-10)
Em seu livro States and markets (1988), Strange afirma que o poder é definido como a capacidade de realizar decisões em quatro necessidades básicas sociais – segurança, conhecimento, produção de bens e serviços e provisão de crédito e dinheiro. Nas Relações Internacionais, dois tipos de poder seriam exercidos. O primeiro é aquele no sentido tradicional realista de autoridade estatal como ator internacional. O outro tipo de poder é o estrutural e refere-se à capacidade de realizar decisões em segurança, conhecimento, produção de bens e serviços e provisão de crédito e dinheiro.
Diante da ausência da harmonia de interesses que serviu de premissa para o ideário idealista e da própria Liga das Nações, Carr (2001, p. 46-49) constrói sua crítica realista sobre a base da centralidade do poder na política internacional. Assim, ele define o poder em três categorias: i) Poder militar: expressão mais alta do poder (high politics); ii) Poder econômico: submete-se ao poder militar. Na verdade, o poder econômico pode vir a serviço do poder político, no sentido dos interesses do Estado (low politics); iii) Poder sobre a opinião: a arte da persuasão como essência do político.
Morgenthau (2003, p. 321) enumera os seguintes elementos do poder nacional: Geografia, Recursos Naturais, Capacidade industrial, Quantidade e qualidade das forças armadas, População. Tradicionalmente, o teste de uma grande potência costumava ser a força bélica. Hoje em dia, os fundamentos do poder têm se afastado da ênfase na força militar e na conquista. O poder econômico tornou-se mais importante que no passado, tanto em virtude do aumento relativo do custo da força quanto porque os objetivos econômicos passaram a ganhar vulto nos valores das sociedades pós-industriais. (Nye Jr 2005, 31 e 35)
Kindleberger (1970, 55-6) apresentou alguns conceitos de poder econômico ressaltando que uma abordagem econômica para a política internacional deve considerar os aspectos econômicos do poder nacional. Em seguida alerta que o poder econômico pode existir nas relações internacionais sem ter sido desenhado como meio para controlar outras nações. Desta forma, é importante distinguir entre força econômica e poder econômico. A força econômica é um meio que pode ou não ser utilizado como poder para afetar outros países. Enquanto, poder econômico pode ser definido como sendo a força econômica utilizada para dominar ou controlar. A capacidade de afetar as decisões de outros seria chamada de influência e força seria o uso de meios físicos para afetar tais decisões. Kindleberger ainda apresenta seu conceito de domínio que seria a condição de o país A afetar as decisões de B (um ou vários países) sem que B possa afetar aquelas de A.
Pode-se constatar, com o que foi exposto acima, que o poder econômico ganhou destaque nas últimas décadas e atualmente é considerado tão importante quanto o poder militar. Isto decorre do fato da agenda política internacional ter se tornado mais pacífica e composta por temas ligados ao ganho de bem-estar global, o que certamente exclui a possibilidade do uso da força na solução de conflitos.
3 Interdependência Econômica
Interdependência na política mundial implica que atores estão inter-relacionados ou conectados de tal forma que um fator que afeta um dos atores, numa única ocasião e num único lugar afetará outros atores. Desta forma, num determinado sistema no qual há mais atores, mais lugares e mais ocasiões maior será a interdependência. Como um termo analítico, a “interdependência” refere-se a situações nas quais atores ou acontecimentos em diferentes partes de um sistema se afetam mutuamente. Simplificando, interdependência significa dependência mútua.
Quanto maior o nível de interdependência entre estados, por exemplo, maior é, provavelmente, a perda de controle que estes experimentam sobre parte ou a totalidade da sua capacidade de decidir de forma independente. (Dougherty e Pfaltzgraff Jr 2003 139).
Richard Rosecrance e Arthur Stein (1973, 2) concebem a interdependência, no seu sentido mais geral, como uma relação de interesses de tal ordem que, quando a posição de uma nação é alterada outros estados se vêem afetados por essa alteração, ou, em sentido econômico, estamos perante interdependências quando constatamos uma crescente sensibilidade nacional face a desenvolvimentos econômicos externos.
Também Keohane e Nye Jr (2001, p. 10-11) apontaram que interdependência implica em sensibilidade. Se um ator de um dado sistema é indiferente sobre alguma mudança no relacionamento enquanto outro é substancialmente afetado, então a interdependência é assimétrica. Esta situação pode levar a uma manipulação do arranjo de relações entre atores mais ou menos interdependentes. Esta posição altamente vulnerável é reconhecida por Keohane e Nye Jr como efeito de longo prazo determinado pela interdependência.
Os custos da interdependência podem estar relacionados com a sensibilidade a curto prazo ou com a vulnerabilidade a longo prazo. A sensibilidade está relacionada com a importância e a rapidez dos efeitos da dependência. A vulnerabilidade está relacionada com os custos relativos de alterar a estrutura de um sistema de interdependência. (Nye Jr 2007, 228-9)
Ser menos dependente pode constituir uma fonte de poder. Se duas partes são interdependentes, mas uma é menos dependente do que a outra, a parte menos depende detém uma fonte de poder enquanto ambas valorizarem o relacionamento de interdependência. A assimetria está no cento da política de interdependência. (Nye Jr 2007, 231)
Sendo o termo interdependência neutro, ele serve tanto para conotações positivas como negativas. Para o neoliberalismo um alto grau de interdependência leva a maior cooperação entre os Estados e, portanto é uma força para a estabilidade no sistema internacional. Os neo-realistas, por outro lado, argumentam que desde que os Estados procurem controlar aquilo do que eles dependem ou reduzir sua dependência, o aumento da interdependência leva ao conflito e instabilidade.
Interdependência complexa é o termo utilizado para refletir o novo retrato da realidade. Como um modelo explanatório de Relações Internacionais ele assume múltiplos canais de contato entre sociedades, ausência de hierarquia entre temas e um papel menos relevante do poder militar e uso da força. Assim ele aumenta a importância de processos políticos distintos que transladam as fontes de poder para o poder como controle de resultados tais como estratégias diversas, controle de agenda e construção de coalizão. Por focar a atenção na interdependência e nas relações transnacionais Keohane e Nye Jr (2001, 21-23) têm apresentado uma visão da política mundial na qual atores, ambiente, estruturas, processos e resultados são menos óbvios e mais complexos que o pensamento unitário e estático oferecido pelo realismo tradicional. Todavia, os próprios autores apontam que tal abordagem não exclui as contribuições anteriores do Realismo.
A crescente interdependência econômica entre as nações faz que a exploração política de chantagem econômica seja menos efetiva. Para tanto as manobras, a diplomacia, o estabelecimento de coalizões, a cooptação e a disposição deliberados dos próprios recursos políticos se converteram nos ingredientes chave para exercer com êxito o poder geoestratégico.
O fato de que em um sistema interdependente a vantagem de cada indivíduo é determinada em parte pelas ações dos outros membros da coletividade faz com que todos sejam vulneráveis às ameaças e às promessas dos demais. Por isso, níveis crescentes de interdependência não só aumentam a necessidade de arranjos institucionais para controlar a interferência mútua como proporcionam aos membros do sistema social, em alguns casos, formas de pressão que podem ser usadas contra os violadores ou possíveis violadores das normas e dos direitos de uma instituição. (Young 2000, 255)
Anteriormente, o jogo internacional podia ser comparado a um jogo de damas com um único tipo de peça (os Estados) fazendo somente um tipo de movimento (defender o interesse nacional). Atualmente o jogo mais apropriado para descrever as relações internacionais seria o xadrez com vários tipos de peças (agentes estatais e não estatais) fazendo movimentos diferentes (cada qual em defesa de seu interesse próprio).
4 As Economias Emergentes no Sistema Internacional
Os conceitos mais comumente utilizados, mesmo pelos organismos internacionais, abordam aspectos de crescimento econômico ou de desenvolvimento sócio-econômico, portanto questões ligadas à política interna dos países. O que interessa para o escopo deste trabalho é analisar quais são as variáveis que se constituem em fontes de poder cuja magnitude e dinâmica influenciam o comportamento dos demais países no cenário político internacional. O objetivo deste capítulo é evidenciar os ganhos de poder de alguns países, atualmente denominados emergentes, baseado na teoria das relações internacionais, notadamente a teoria da interdependência complexa.
Mudanças ocorridas a partir da década de 1990, nas arenas domésticas e internacional, proporcionaram a qualificação de algumas economias emergentes que mesmo ainda não atingindo os níveis sociais dos países avançados já são capazes de impactar o sistema econômico internacional. Tais mudanças, causas e conseqüências da globalização, levaram alguns países a aumentarem seus superávits em transações correntes, devido ao aumento do comércio exterior (algumas vezes praticando taxas de câmbio desvalorizadas) e da recepção de investimento direto que, por conseguinte elevou suas taxas de crescimento do PIB. Tais eventos possibilitaram a formação de grandes volumes de reservas internacionais e o surgimento de economias em desenvolvimento relativamente resistentes a choques externos, com disponibilidade de poupança para investir no resto do mundo e com participação percentual relevante no PIB mundial e nos fluxos de comércio e finanças.
Desta forma o sistema internacional, fragilizado deste o colapso de Bretton Woods (no início da década de 1970), vê-se ainda mais debilitado em sua governança comandada por um grupo reduzido de países, tendo em vista a impossibilidade de controlar boa parte do PIB global através do crédito concedido pelas instituições internacionais. A fragilidade do sistema atual e a ascensão das economias emergentes como atores protagonistas na política internacional podem ser evidenciados por fatos recentes, tais como: aumento significativo do volume de suas reservas e criação e expansão de diversos fundos soberanos; redistribuição das cotas no FMI e Banco Mundial em favor dos emergentes; admissão de alguns emergentes no comitê de estabilidade financeira do BIS; e, criação do G-20 com a inclusão dos emergentes.
Na literatura da economia política internacional há uma vasta discussão para determinar uma proxy de medição de poder. O debate tende a estabelecer a variável PIB como proxy de poder econômico, embora outras variáveis também possam ser consideradas, elas estão de alguma forma relacionadas ao PIB. Neste trabalho o PIB será considerado a variável chave como proxy de poder econômico internacional. Embora reconheça-se a controvérsia também se reconhece a dificuldade de encontrar outro meio de medição mais prático. Outras variáveis incorporadas à análise dão ao PIB um caráter dinâmico. Todas estas variáveis isoladamente não seriam suficientes para atribuir poder aos Estados Nacionais, porém quando analisadas em conjunto podem esclarecer melhor muitos dos movimentos da política internacional.
A extensão territorial é uma variável importante porque pode abrigar uma grande população, preços baixos das terras cultiváveis, maior quantidade e variedade de recursos naturais que reduziriam a dependência no caso destes virem a ser industrializados agregando valor à produção. A grande população contribui fornecendo mão-de-obra a preços baixos e consumidores que fortalecem o mercado doméstico.
A taxa de retorno sobre o capital é atrativo em boa parte dos países emergentes, principalmente naqueles que implementaram reformas institucionais, reduzindo os riscos, estabilizando a macroeconomia, retomando o crescimento a taxas superiores a dos países desenvolvidos e consolidando seus mercados financeiros e bursáteis.
O círculo virtuoso é acelerado pela conjugação do exposto acima e a perspectiva de incorporação de um vasto contingente de novos consumidores. Com base nisto muitas empresas transnacionais tem investido nas grandes economias emergentes para obterem ganhos de escala e competitividade em nível global. Este crescimento também tem acarretado em mudança qualitativa da mão-de-obra e dos consumidores que tem aumentando sua qualificação profissional/educacional e em decorrência alterado seus hábitos de consumo, que por sua vez criam novas oportunidades de investimentos.
A melhoria das condições econômico-financeiras e as condições globais favoráveis às exportações das economias emergentes possibilitaram o acúmulo de reservas internacionais capazes de reduzir suas vulnerabilidades a ataques especulativos, reduzir riscos, reduzir a dependência de capitais estrangeiros de curto prazo e consequentemente aumentarem sua autonomia na condução de suas políticas externas, o que se constitui em um sintoma de poder.
4.1 Argumentos Contrários ao Poder dos Emergentes
Pode-se contra-argumentar que algumas economias emergentes, principalmente os BRICs, já estão entre as maiores economias do mundo há muitos anos. O Brasil, por exemplo, já figura entre as 10 maiores desde a década de 1970. Então, por que somente a partir do início dos anos 2000 passaram a ser consideradas potências emergentes?
Há outros contra-argumentos à ascensão de alguns países no cenário internacional. Em trabalho publicado em 2007 a economista Hochraich defende a impossibilidade de China e Índia tornarem-se potências. O trabalho de quase 200 páginas (Pourquoi l’Inde et la Chine ne Domineront pas le Monde de Demain, 2007) faz um inventário de todos os problemas encontrados nos dois países que segundo a autora os inviabilizariam como potências mundiais no futuro. A análise da autora poderia ser expandida para todos os demais países em desenvolvimento que com algumas diferenças apresentam, basicamente, problemas semelhantes.
Em poucas palavras podem-se resumir seus argumentos conforme segue: “O mercado mundial está estruturado de maneira oligopolística no qual predominam os interesses dos países desenvolvidos, representados pelas formas mais concentradas do capital financeiro, solidamente estaiados pelos Estados e pelas instituições financeiras internacionais. Os países em desenvolvimento estão em posição subordinada, enfrentando vários obstáculos à acumulação de capital e à aquisição das técnicas necessárias à ascensão ao estágio de país desenvolvido”. (Hochraich 2007, 188)
A autora continua sustentando a impossibilidade de poder dos emergentes argumentando da seguinte maneira: “Na realidade, o desenvolvimento repousa sobre dois fatores essenciais: a capacidade de inovação e a concentração financeira. De uma parte, os países em desenvolvimento não reuniram as condições que os permitam produzir a inovação. De outra parte, eles não possuem, nem em nível de Estado, nem em nível de suas empresas, uma concentração financeira comparável a dos países industrializados. Os interesses do capital financeiro internacional que controla o mercado mundial deixam pouco espaço para a emergência de novos países desenvolvidos”. (Hochraich 2007, 189-190)
4.2 Desconstrução dos Argumentos Contrários ao Poder dos Emergentes
Não se questiona os fatos concernentes a todas as mazelas que persistem nos países emergentes, todavia algumas ponderações podem facilmente invalidar as conclusões dos autores citados anteriormente. Primeiramente, uma crítica mais geral sobre as análises acima é de que se pode elencar também uma série de problemas no mundo desenvolvido atual e concluir, precipitadamente, que eles não mais dominarão o mundo num futuro próximo. Citando alguns: grave ameaça de atentados terroristas, pressão social de imigrantes de outras etnias que vivem legalmente nestes países, tensões separatistas (fragmentação territorial), baixas taxas de crescimento, desindustrialização, aumento do desemprego, perda de competitividade da indústria e da agricultura, envelhecimento da população, gargalos na geração de energia, etc.
A participação percentual dos EUA na economia mundial em 1980 era de 22,5% e da União Européia de 29,8%, em 2008 suas participações declinaram para 20,9% e 22,4%, respectivamente. Em suma, todos os países têm problemas, inclusive as atuais potências. Portanto, afastar a hipótese de que outras nações possam a vir participar como protagonistas da política internacional com base nestes argumentos não se sustenta.
Em segundo lugar, dizer que os países em desenvolvimento concentram pouco capital financeiro e geram pouca inovação constitui uma análise estática pura e simplesmente, sem considerar a evolução destas variáveis nas últimas duas décadas. Além disso, muitas das economias emergentes resolveram ou estão resolvendo vários de seus problemas estruturais e institucionais.
As críticas à ascensão de potências emergentes baseiam-se em pressupostos relativamente frágeis. Em parte porque acreditam que no sistema internacional haverá sempre uma nação hegemônica que o estabilize. Esta não é uma constante, embora atualmente os EUA ainda constituem-se num hegemon, uma análise dinâmica aponta para um sistema internacional multipolar, mesmo que com alguma assimetria de poder.
Outra parcela da explicação está em crer que para se ter poder no plano internacional seja obrigatório apresentar desenvolvimento social e econômico comparável aos países mais poderosos. Pode-se constatar que há vários países desenvolvidos que não são protagonistas na política internacional, principalmente aqueles com território e população pequenos. Se o desenvolvimento sócio-econômico fosse o parâmetro de poder internacional, países como Luxemburgo, Bélgica, Suíça, Mônaco, Dinamarca estariam entre as potências que dominam a política internacional. O argumento de que as economias emergentes apresentam baixos níveis de consumo ao invés de afugentar investimentos tem sido motivo de atração, pois demonstra capacidade de crescimento com bons retornos sobre o capital investido.
Quanto à concentração de capital financeiro, os críticos incorrem novamente no erro da análise estática, visto que desprezam o rápido crescimento de acumulação de reservas associado à redução de riscos de fuga de capital e melhoria nas contas públicas. Além disso, a atração de capital financeiro e produtivo, associado à acumulação doméstica tem sido crescente nos últimos anos. O desenvolvimento dos sistemas financeiros, bursáteis e creditícios domésticos destes países, devido ao aumento da segurança institucional também têm sido notório.
A questão de produzir pouca inovação também deve ser relativizada, tendo vista a melhoria das condições de ensino e o aumento da massa de universitários e pesquisadores que vem refletindo em mais publicações científicas e inovações tecnológicas. Embora relativamente pequeno em comparação aos países avançados, sua evolução recente aponta para ganhos de escala e futuro promissor nas próximas décadas. Além disso, boa parte da inovação tecnológica e científica não pertence aos Estados nacionais podendo ser comprada ou migrar para os países emergentes que oferecem incentivos que os atraem, ou até mesmo vir juntamente com os investimentos diretos. Muitas empresas transnacionais desenvolvem suas tecnologias em países desenvolvidos, porém sua linha de produção está nos países em desenvolvimento, contribuindo para o aumento das taxas de crescimento, de emprego e acumulação de capital.
4.3 Os Emergentes no Sistema Internacional
Krasner (1981, 119-48) rejeita a hipótese de que os Estados perseguem simplesmente a riqueza, e argumenta que os Estados do Terceiro Mundo também se envolvem na luta pelo poder, querendo diminuir sua vulnerabilidade ao mercado e exercer um controle estatal maior sobre este. Krasner argumenta que o desafio do Terceiro Mundo ao liberalismo global é realmente um ataque às regras do jogo, em vez de uma resposta direta à pobreza econômica, apresentando evidências de que os países mais pobres estão coletivamente em melhor situação econômica do que estavam no passado e que os clamores para a criação de uma nova ordem internacional surgiram depois da guerra, quando os índices de seu crescimento e renda refletiram valores mais altos.
Na opinião de Cervo e Bueno, os países centrais dão sinais de preocupações com o ritmo e os efeitos da internacionalização de empreendimentos emergentes e desencadeiam perigosa tendência ao reverso da globalização. Grande estoque financeiro acumula-se no tesouro de países emergentes exportadores de matérias-primas ou produtos, como os países árabes e a China. (Cervo e Bueno 2008, 510)
Movimentos recentes dos países centrais na tentativa de regular os fundos soberanos provenientes dos emergentes reforçam a idéia do receio, todavia não há nenhuma evidência de ações antiglobalizantes nem por parte dos países ricos nem dos países emergentes. Afinal foi a própria globalização que criou as oportunidades para os emergentes, através do aumento dos fluxos comerciais, financeiros e de investimentos diretos. Além disso, tanto países desenvolvidos como em desenvolvimento apregoam a necessidade de reformas no sistema internacional, destacadamente nas finanças internacionais. Todavia, este debate perdura há algumas décadas e ficou mais complicado após a crise de 2008-9 que teve seu epicentro nos países ricos, evidenciando que as reformas devem valer para todos.
É importante lembrar que os países em desenvolvimento que ascenderam no sistema internacional nos últimos 30 anos o fizeram porque aumentaram sua interdependência com os países desenvolvidos, e não porque lideraram parcerias ou coalizões de países mais atrasados. (Viola e Leis 2007, 112) Diferentemente das décadas anteriores, a partir de 1990 aumentou bastante o número de países relevantes que são democracias de mercado, produto da terceira onda de democratização e das reformas econômicas liberais. (Huntington, apud Viola e Leis, 2007, 50)
Brzezinski (1998) analisou a perspectiva da distribuição de poder global, considerando o ganho relativo de poder de algumas potências regionais, notadamente as asiáticas, do ponto de vista da manutenção da hegemonia americana. Desta forma, Brzezinski ressaltou que a Rússia segue sendo um dos principais jogadores estratégicos, mesmo no estado de debilidade em que se encontra e a uma situação de mal-estar que provavelmente se prolongará. Ademais, ainda não fez sua escolha estratégica fundamental em relação aos EUA: é amiga ou inimiga? É possível que sinta que neste ponto se centram suas alternativas fundamentais quanto ao continente euroasiático. Em grande medida estas dependem da evolução de sua política interna e especialmente na questão de se a Rússia se converterá numa democracia européia ou num império euroasiático. (Brzezinski 1998, 52)
Ele considera que de maneira similar a China é um dos jogadores principais, pois já é um poder regional significativo e suscetível de hospedar maiores aspirações dada sua história como potência importante e sua concepção do Estado chinês como o centro do mundo. As opções que a China está exercendo já começam a afetar a distribuição geopolítica do poder na Ásia, ao mesmo tempo que seu ímpeto econômico lhe dará um maior poder material e incrementará suas ambições. Assim, a Rússia também poderá ser afetada pela emersão de uma China mais ativa em escala mundial. No que concerne à Índia, o autor ressalta que está em vias de se estabelecer como uma potência regional e se considera a si própria como um jogador global principal em potencial. Também se vê com rival da China. (Brzezinski 1998, 52-3)
4.4 Os BRICs
BRIC é o título de uma análise de 2001 do banco de investimentos Goldman Sachs que virou uma idéia que se disseminou pelo mundo. A palavra é formada pelas primeiras letras de Brasil, Rússia, Índia e China que, segundo alguns analistas, no futuro se tornariam pólos no sistema econômico multipolar, de que já fazem parte os EUA, a União Europeia e o Japão. Os BRICs são países emergentes grandes em termos de território, população, recursos naturais, do que deriva grande potencial econômico e, uma característica fundamental, são sociedades de extrema heterogeneidade e desigualdade social. (Viola e Leis 2007, 66-7)
Tabela 1: Dados dos Países (BRIC)
| Ano 2006 | Brasil | China | Índia | Rússia |
| Território | 8,5 milhões Km2 | 9,5 milhões Km2 | 3.2 milhões Km2 | 17 milhões Km2 |
| População | 186 milhões | 1.300 milhões | 1.100 milhões | 142 milhões |
| PIB (USD) | 900 bi | 2.700 bi | 880 bi | 1.050 |
| PIB ppp (USD) | 1.700 bi | 10.000 bi | 4.300 bi | 1.800 bi |
| PIB pc (USD) | 4.900 | 2.100 | 800 | 7.600 |
| PIB pc ppp (USD) | 9.000 | 8.200 | 3.800 | 12.500 |
A tabela acima mostra a magnitude de algumas das principais variáveis dos países que compõem o grupo dos BRICs e que podem ser consideradas como fontes de poder econômico. Os destaques seriam o vasto território, a grande população e o PIB, mas também o PIB per capita que embora muito inferior ao dos países desenvolvidos não é tão baixo e, quando associado à população, constitui-se um mercado consumidor não desprezível para um grande número de empresas locais ou estrangeiras.
Os estudos do Goldman Sachs de 2001 e 2003 fazem algumas considerações na hipótese do desenvolvimento dos países se manterem dentro das suas expectativas. Resumidamente, concluíram que a importância relativa dos BRICs quanto à demanda e poder de compra cresceria muito em comparação às economias mais avançadas; o crescimento maior alteraria o fluxo de capitais em favor destes países; o aumento da renda poderia alterar os padrões de consumo locais e conseqüentemente o padrão dos preços de certas commodities; o encolhimento das economias mais avançadas desviaria os investimentos para os grandes países emergentes que oferecem alguns setores atrativos para muitas empresas multinacionais, embora torne as decisões estratégicas empresariais mais complexas; e, outras economias localizadas na mesma região podem beneficiar-se desta situação, estando três dos BRICs localizados na Ásia poder-se-á observar crescimento de importância geopolítica da região.
A tabela abaixo mostra o volume crescente de investimento estrangeiro que ingressa nos países emergentes, mais notadamente nos BRICs (aqui acrescido do México) o que demonstra que as empresas transnacionais não vêem os problemas estruturais destes países como obstáculos impeditivos para obtenção de boas taxas de retorno sobre o capital.
Tabela 2: Investimento Estrangeiro Direto – Recebido (USD milhões)
|
1990-2000 Média Anual |
2005 | 2006 | 2007 | 2008 | 2009 | |
| Brasil | 12.000 | 15.066 | 18.822 | 34.585 | 45.058 | 25.949 |
| Rússia | 1.941 | 12.886 | 29.701 | 55.073 | 70.320 | 38.722 |
| Índia | 1.705 | 7.606 | 20.336 | 25.127 | 41.554 | 34.613 |
| China | 30.104 | 72.406 | 72.715 | 83.521 | 108.312 | 95.000 |
| México | 9.373 | 21.922 | 19.316 | 27.278 | 21.950 | 12.522 |
A tabela com dados referentes à participação percentual do PIB mundial evidencia a perda de participação dos EUA e da União Européia, esta com forte queda, enquanto China e Índia apresentam forte alta.
Tabela 3: Participação no PIB mundial % PPC
| 1980 | 2008 | |
| Brasil | 3,6 | 2,8 |
| Rússia | - | 3,2 |
| Índia | 2,2 | 4,8 |
| China | 2,0 | 11,4 |
| México | 2,5 | 2,0 |
| EUA | 22,5 | 20,9 |
| EU | 29,8 | 22,4 |
A tabela a seguir ilustra as perspectivas das nações unidas para o peso demográfico dos países selecionados. Nela nota-se que o peso já enorme dos países emergentes tende a manter-se, mesmo que alguns deles apresentem redução moderada, enquanto EUA e União Européia terão perda significativa de seus pesos.
Tabela 4: Peso Demográfico (%)
| 1950 | 2000 | 2050 | |
| Brasil | 2,1 | 2,8 | 2,8 |
| Rússia | 4,1 | 2,4 | 1,2 |
| Índia | 14,7 | 17,1 | 18,0 |
| China | 21,9 | 20,7 | 15,3 |
| México | 1,1 | 1,6 | 1,4 |
| EUA | 6,2 | 4,7 | 4,4 |
| EU 27 | 14,7 | 7,9 | 5,2 |
Considerando que grandes economias como as dos países selecionados costumam apresentar uma pequena parte de seus PIBs explicados pelo comércio exterior é interessante notar o exponencial crescimento de suas exportações em valores absolutos em grande parte devido ao processo recente de abertura destas economias. A tabela abaixo exemplifica este fato.
Tabela 5: Exportações de Mercadorias (bilhões USD)
| 1980 | 2007 | 2008 | % mundo | |
| Brasil | 20,1 | 160,6 | 197,9 | 1,6 |
| Rússia | - | 355,2 | 471,6 | 3,9 |
| Índia | 8,6 | 145,2 | 177,5 | 1,5 |
| China | 18,0 | 1.217,9 | 1.428,3 | 11,8 |
| México | 2,9 | 272,0 | 291,7 | 2,4 |
| EUA | 225,6 | 1.163,2 | 1.287,4 | 10,6 |
| EU | - | 1.485,4 | 1.924,9 | 15,9 |
Os vetores principais do sistema internacional no início do século XXI são a transição da economia industrial para a economia do conhecimento e a aceleração da globalização em todas as dimensões. As últimas duas décadas da história mundial demonstram a superioridade do modelo explicativo liberal-neoclássico (no qual a ascensão dos países no sistema internacional está correlacionada com o aumento da interdependência com os centros mais dinâmicos da economia mundial). As democracias de mercado estabeleceram sua hegemonia no sistema internacional no fim do século XX. As políticas externas dessas democracias de mercado são convergentes nas questões fundamentais do sistema internacional, sintetizáveis na lei da paz democrática (baseada na premissa que as diferenças entre essas democracias de mercado não são processadas como ameaças aos interesses vitais das outras). Nesse sentido, a quantidade e intensidade das disputas comerciais e financeiras entre elas podem aumentar, mas elas serão canalizadas pacificamente dentro das instituições e regras de jogo estabelecidas. (Viola e Leis 2007, 72)
A consultoria PricewaterhouseCoopers (Hawksworth 2006), elaborou estudo semelhante ao do Goldman Sachs, intitulado “The world in 2050: how big will the major emerging market economies get and how can the OECD compete?”. A diferença reside nos termos apresentados. Enquanto a Goldman Sachs criou o termo BRICs, o outro estudo destacou o grupo das sete maiores economias emergentes ao qual chamou de E7 para contrapor ao G7, grupo das sete maiores economias emergentes. Os resultados também são bastante semelhantes.
Num outro relatório intitulado “Banking in 2050: how big wil the emerging markets get?” a mesma consultoria comparou o E7 com as economias desenvolvidas do G7 para projetar a participação destes no mercado bancário mundial no ano de 2050. O estudo analisou as projeções de PIB e PIB per capita, a tendência das taxas de crescimento dos ativos dos bancos e a tendência sobre as taxas de retornos sobre os ativos.
As projeções do estudo apontaram que o conjunto destes sete países emergentes terá um mercado de crédito doméstico total de 98 trilhões de dólares, enquanto os países do G7 somarão 83 trilhões. As estimativas derivam do pressuposto de que as economias emergentes analisadas (China, Índia, Brasil, México, Rússia, Turquia e Indonésia) apresentaram crescimento de seus créditos domésticos bem superior ao dos países desenvolvidos. Resumidamente, o trabalho aponta como causas deste crescimento a estabilidade macroeconômica conquistada a partir da década de 90, os altos retornos proporcionados para os bancos, a pequena dimensão atual dos mercados de créditos nestes países, a melhora na regulação doméstica. Para os países desenvolvidos o relatório aponta que estes já passaram por processo parecido há 20 ou 30 anos e atualmente apresentam crescimento moderado.
No início do século XXI, as condições internacionais se alteraram. A globalização tornou-se policêntrica. De um lado, o Euro concorre (timidamente) com o dólar o que atribui novas responsabilidades às autoridades européias nas relações monetárias internacionais. De outro lado, os novos países, em particular os BRICs, devem participar da reforma e da gestão do sistema monetário internacional. Uma democratização das instituições financeiras internacionais parece necessária de maneira a instaurar uma divisão das responsabilidades em vez da atual política na qual as partes evitam enfrentar o problema (benign neglect). (Guillaumin e Plihon 2008, 17)
4.5 Evidências da Ascensão do Poder das Economias Emergentes
Nesta seção são elencados alguns fatos recentes que corroboram a hipótese de que algumas nações emergentes estejam acumulando recursos de poder suficientes para influenciar as decisões no cerne do sistema internacional. O desafio para os próximos anos é gerir a transformação do sistema internacional com o risco de tensões e conflitos criando condições de uma prosperidade econômica compartilhada. O objetivo deve ser transformar profundamente o sistema, sem uma ruptura maior e numa dinâmica de mudança sustentada. O início de uma reforma da governança global reconhecendo o maior peso dos grandes países emergentes e o reforço do papel do G-20 são sinais de que o desafio pode ser superado. (Jacquet 2010, 26)
4.5.1 O Surgimento do G-20
O Grupo dos Vinte (G-20) ministros de finanças e presidentes de bancos centrais foi estabelecido em 1999 para reunir sistematicamente importantes economias industrializadas e em desenvolvimento para discutir questões chave da economia global. O G-20 é um fórum informal que promove discussões abertas e construtivas entre mercados emergentes e países industrializados em temas relativos à estabilidade econômica global. Por contribuir para o fortalecimento da arquitetura financeira internacional e prover oportunidades para diálogo sobre políticas nacionais, cooperação internacional e instituições financeiras internacionais, o G-20 ajuda a manter o crescimento e desenvolvimento ao redor do mundo.
O G-20 foi criado como uma resposta tanto para as crises financeiras dos anos 1990 e o reconhecimento de que importantes economias emergentes não estavam adequadamente incluídas na discussão e na governança dos temas globais. Para assegurar que o G-20 e as instituições financeiras internacionais trabalhem juntos, representantes do FMI e do Banco Mundial são convidados a participarem dos fóruns. Juntos os membros do G-20 representam em torno de 90% do PIB global, 80% do comércio internacional e dois terços (2/3) da população mundial, o que lhe dá legitimidade e influência sobre o gerenciamento da economia e do sistema financeiro global.
O G-20 reconheceu o papel dos países emergentes no crescimento mundial e desta forma resolveu aumentar seus pesos nas Instituições Internacionais principalmente o FMI. Os países desenvolvidos sobre-representados concordaram em transferir 5% dos direitos de votos aos países sub-representados, notadamente os emergentes asiáticos, a partir de 2011. No Banco Mundial a transferência será de 3%. O compromisso é uma vitória para a China, Turquia e Coréia, os maiores ganhadores.
A Europa arcará com as maiores perdas, mesmo tendo obtido alguns votos suplementares para a Polônia ou Espanha. Os EUA não perdem nada, pois já estão sub-representados no FMI, considerando-se seu peso na economia mundial, têm 17% dos votos, porém com direito de veto. Com 32% de votos no FMI, os europeus aparecem sobrerrepresentados no G-20, enquanto seu peso na economia mundial é de 22,4%. Atualmente os países desenvolvidos detém 57% dos votos no FMI contra 43 dos emergentes.
Tabela 6: Dados Referentes aos Membros do G-20
| PAÍSES | PIB 2008 | PIB pc | ÁREA Km² |
POPULAÇÃO 2008 (milhões) |
IDH |
| EUA | 14.330 | 47.165 | 9.629.091 | 304 | 0,950 |
| JAPÃO | 4.844 | 38.055 | 377.873 | 127 | 0,956 |
| CHINA | 4.222 | 3.174 | 9.640.821 | 1.330 | 0,762 |